Antes de construir um império no setor financeiro que hoje atrai o escrutínio implacável da Polícia Federal (PF), o empresário Daniel Vorcaro navegou por um mar de apostas que misturava empreendimentos familiares em Belo Horizonte (MG), editoras, projetos imobiliários frustrados e até emissora de televisão.
Mas, foi na setor financeiro que aconteceu a guinada que levou o dono do Banco Master de um patrimônio declarado de R$ 218 milhões para R$ 1,4 bilhão entre 2018 e 2023, segundo a Polícia Federal (PF).
Nos últimos anos, a expansão do grupo passou a ser alvo de investigação, que apontam supostas fraudes bilionárias, envolvendo operações de crédito, recursos de fundos de previdência e títulos que, segundo os investigadores, teriam sido criados ou negociados sem lastro.
Mineiro, Vorcaro é formado em
Economia pelo Ibmec e tem MBA em Finanças pela mesma instituição. Filho de Henrique Vorcaro,
fundador da construtora Multipar, começou a trabalhar nos negócios
da família ainda jovem.
Aos 19 anos, assumiu a
administração de uma empresa de cursos educacionais e de uma editora de livros
didáticos pertencentes ao pai. Os negócios foram vendidos posteriormente, e
Vorcaro passou a atuar com Henrique no setor imobiliário, em empresas como
Multipar e Mercatto.
Antes de entrar no sistema
financeiro, também investiu em empreendimentos de maior porte. Aos 21 anos,
participou de um projeto para construir um hotel de 37 andares em Belo
Horizonte, com heliponto e centro de convenções. O investimento superava R$ 200
milhões e contava com incentivos da prefeitura, mas a obra não foi concluída e
o empreendimento acabou considerado um fracasso em Minas Gerais.
A diversificação incluiu ainda um fundo voltado a cemitérios. Outro capítulo ocorreu
na televisão: o pai de Vorcaro ajudou a Igreja Batista da Lagoinha, em
Belo Horizonte, a comprar uma emissora, onde Daniel chegou a apresentar um
programa de música gospel.
A chegada
ao Banco Máxima
A entrada de Vorcaro no sistema
bancário aconteceu em 2016, depois de negócios mantidos com Saul Sabbá, então
controlador do Banco Máxima, em operações relacionadas a fundos imobiliários.
Naquele ano, Sabbá ofereceu
uma participação na instituição ao empresário. Vorcaro entrou inicialmente como
sócio minoritário, em associação com os irmãos Antônio e Vicente Conte. No ano
seguinte, começou o processo para assumir o controle do banco, operação que
dependia de autorização do Banco Central do Brasil, concedida em 2019.
O Máxima já atravessava dificuldades financeiras e havia sido inabilitado pelo
Banco Central por fraude e rombo de caixa. Vorcaro recorreu a antigos parceiros
e fez o aporte necessário para tentar reerguer a instituição.
Em 2021, após uma
reestruturação societária, operacional e financeira, o banco passou a se chamar
Banco Master. A mudança veio acompanhada de uma capitalização de
aproximadamente R$ 400 milhões.
Por isso, Vorcaro não criou o
banco do zero. O empresário assumiu o Banco Máxima entre 2016 e 2019 e,
posteriormente, transformou a instituição no Banco Master.
O crescimento do Master e o patrimônio de Vorcaro
Sob o comando de Vorcaro, o
Master adotou uma estratégia agressiva de expansão. O grupo ampliou sua atuação
por meio da aquisição de participações em empresas e instituições financeiras,
entre elas a seguradora Kver, o banco Voiter, antigo Indusval, Vipal, Banif
Brasil e o banco digital Will Bank.
Em outra frente, Vorcaro investiu R$ 300 milhões no
Atlético-MG e passou a deter 26% da Sociedade Anônima do Futebol
(SAF) do clube mineiro.
O patrimônio pessoal
acompanhou esse crescimento. Segundo declarações de Imposto de Renda, passou de
R$ 218 milhões em 2018 para R$ 1,4 bilhão em 2023.
O padrão de vida também ganhou escala. Vorcaro mantinha uma casa avaliada em R$
280 milhões em Trancoso, na Bahia. O imóvel recebia eventos, com aluguel da
área externa superior a R$ 500 mil por diária. Em 2023, a festa de 15 anos da
filha custou R$ 15 milhões. O empresário também possuía um jatinho avaliado em
R$ 200 milhões.
No exterior, o Master chegou
a alugar um escritório de cerca de 2.400 metros quadrados no Brickell Plaza, em
Miami, nos Estados Unidos, mas o espaço nunca chegou a funcionar. Segundo o
Financial Times, Vorcaro também alugou um endereço no Bishopsgate, prédio
comercial em Londres onde está instalada a Apple, mas o banco posteriormente
desistiu da locação.
O dinheiro
por trás da expansão
A investigação da PF passou a
examinar não apenas o patrimônio de Vorcaro, mas também a forma como o
conglomerado captava e movimentava recursos.
Uma das principais fontes de financiamento do Master eram os Certificados de
Depósito Bancário (CDBs), títulos utilizados pelos bancos para captar dinheiro
de investidores. A instituição oferecia taxas superiores às praticadas no
mercado. Em determinadas operações, o retorno prometido chegava a 40% acima da
taxa básica de referência.
Segundo os investigadores, o
problema estava no destino desses recursos. Parte dos ativos adquiridos pelo
banco não apresentaria rentabilidade suficiente e, em alguns casos, sequer
existiria.
A PF afirma que dinheiro
captado por meio dos CDBs teria sido direcionado para operações consideradas
arriscadas com empresas frágeis e endividadas, em uma estrutura que os
investigadores classificam como uma espécie de “originação” fictícia.
As suspeitas contra o Banco Master
Os riscos envolvendo as
operações do Master já eram apontados pelo Banco Central desde 2023. A dimensão
da crise ganhou contornos maiores durante a tentativa de venda da instituição ao Banco de
Brasília (BRB).
Segundo as investigações, o
Master teria criado uma estrutura complexa para fraudar o mercado financeiro.
Uma das principais suspeitas envolve a simulação da venda de carteiras de
crédito consignado ao BRB que seriam falsas ou não teriam lastro real.
As fraudes financeiras
identificadas nessa etapa da investigação chegam perto de R$ 12 bilhões.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também apontou irregularidades em uma
operação envolvendo o Master e uma pequena clínica médica de Contagem. A
empresa tinha capital social de R$ 700 mil e emitiu notas comerciais de R$ 361
milhões para o banco entre 2021 e 2025. A defesa da clínica e do banco nega as
acusações.
Bilhões de fundos de
previdência
A investigação também chegou
aos recursos administrados pelos regimes próprios de previdência social (RPPS),
sistemas destinados aos servidores públicos titulares de cargos efetivos da
União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
Dados do Ministério da Previdência Social indicam que 19 entes federativos
fizeram aplicações no Banco Master que, juntas, somam R$ 1,87 bilhão. Os
investimentos foram realizados entre outubro de 2023 e dezembro de 2024.
Entre os maiores aportes
estão R$ 970 milhões da Rioprevidência, regime previdenciário do estado do Rio
de Janeiro, e R$ 400 milhões da Amapá Previdência (Amprev). Maceió informou ter
aplicado R$ 97 milhões; São Roque (SP), R$ 93,1 milhões; e Cajamar (SP), R$ 87
milhões.
A PF identificou ainda um
padrão de captação junto a institutos de previdência de municípios paulistas.
De acordo com a investigação, Vorcaro, acompanhado por quatro advogados, teria
percorrido cidades oferecendo promessas de altos retornos e garantias para
atrair os aportes.
Um dos casos citados é o instituto de previdência de Santo Antônio de Posse
(SP), que aplicou R$ 13 milhões em Letras Financeiras (LFs) emitidas pelo Banco
Master.
Os investigadores apontam
possíveis violações de normas, excesso de exposição ao risco, fragilidades nos
processos decisórios e inadequação dos ativos adquiridos.
A crise e o
maior resgate da história do FGC
A crise do Banco Master levou
o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a iniciar o maior resgate de sua história,
estimado em R$ 41 bilhões. Cerca de 1,6 milhão de credores aguardam
ressarcimento.
Entre os atingidos estão fundos de pensão de servidores públicos de cinco
municípios paulistas e do governo do Rio de Janeiro.
O Ministério Público Federal
(MPF) classificou a conduta atribuída ao Master como “um dos maiores crimes
contra o sistema financeiro já documentados”. PF e MPF também afirmam que havia
uma “organização criminosa dentro da estrutura formal do banco”.
As acusações ainda estão sob
investigação e não representam uma condenação definitiva. A defesa de Vorcaro
nega as acusações.
As prisões de Daniel Vorcaro
Vorcaro foi preso pela
primeira vez em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de
Guarulhos, em São Paulo. Segundo a investigação, o empresário tentava embarcar
em um jato particular com destino final a Dubai.
Naquele momento, era
investigado por suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e
organização criminosa. Posteriormente, foi solto por decisão do Tribunal
Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que determinou o uso de tornozeleira
eletrônica.
Em 4 de março de 2026, voltou
a ser preso preventivamente em São Paulo, na terceira fase da Operação Compliance Zero, por decisão
do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Desde 25 de junho de 2026, Vorcaro está custodiado no Centro de Detenção
Provisória II (CDP II), no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal,
conhecido como Papudinha, em Brasília. A prisão preventiva permanece vigente.
O que a
Operação Compliance Zero investiga
A Operação Compliance Zero
apura um esquema envolvendo a emissão e negociação de títulos de crédito falsos
e instituições financeiras integrantes do Sistema Financeiro Nacional, entre
elas o Banco Master.
As investigações abrangem
suspeitas de gestão fraudulenta, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional,
lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, organização criminosa e
obstrução da Justiça.
Também são apuradas suspeitas de ameaças, coerção e intimidação de adversários,
ex-funcionários e jornalistas, além de invasão de dispositivos informáticos e
monitoramento ilegal de pessoas.
A PF investiga ainda a
existência de uma estrutura chamada “A Turma”, descrita pelos investigadores
como uma espécie de “milícia privada” que teria sido utilizada para vigiar e
intimidar opositores do banco.
Vorcaro
tenta colaborar com a investigação
O caso entrou em uma nova
etapa com as tentativas de colaboração de Vorcaro. A defesa apresentou
propostas de colaboração premiada à PF, mas duas versões teriam sido rejeitadas
por falta de elementos considerados suficientes para o avanço das negociações.
Em 28 de agosto de 2026, Vorcaro prestou novo depoimento à PF por
videoconferência, diretamente da Papudinha. A oitiva ocorreu no inquérito que
investiga a suspeita de que ex-servidores do Banco Central teriam recebido
propina para favorecer o Banco Master durante a supervisão da instituição.
A defesa afirma que Vorcaro
pretende colaborar, mas sustenta que a PF não teria demonstrado interesse em
ouvi-lo. A corporação, por sua vez, afirma que o empresário pode negociar
diretamente com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e que as propostas
anteriores foram recusadas por não apresentarem provas suficientes. Até o
momento, não há acordo de delação premiada homologado.
Para esta quarta-feira (15),
está prevista uma sessão extraordinária do plenário do STF para analisar a
investigação envolvendo mensagens atribuídas a Vorcaro e ao ministro Alexandre
de Moraes, além de um pedido da PGR para declarar nula parte da apuração
conduzida por Mendonça. A análise do Supremo, contudo, não representa, por si
só, uma decisão sobre a soltura do empresário. A prisão preventiva e as
acusações relacionadas às operações financeiras seguem em discussão
separadamente.
Fonte: Bnews
Postar um comentário